quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Da prosa para o verso

 

 original em: (por Erlison Galvão e Michele Lobo)

Não é fácil traduzir na escrita aquilo que ela não pode conter. Por isso,  muitas vezes o medo me fez silenciar não dando oportunidade aos parágrafos do meu cotidiano... O Autor desta história, que faz de mim o protagonista, observou: falta eloquência! Hoje, aquilo que antes era monólogo, deixou de ser intangível quando transformou-se em diálogo. Não mais estava sozinho. Com outros, começei a atuar nesta história, descobrindo que:

Sou um pobre verso que não se contém,
Desejando ser uma voz a ecoar,
Na prosa de alguém que consegue absorver,
Este grito inibido nas raízes do meu ser...

Do outro lado, alguém escutou, e assim evidenciou:

Como agradar o coração de Deus em seu chamado, 
se há espinhos tão evidentes a serem arrancados?
Minha luta constante é para manter-me autêntica, 
mas não fazer dessa autenticidade uma metralhadora giratória. 
Não fazer de minha evangelização imposição, 
não fazer de meu testemunho uma faca de dois gumes, onde me corto...

O pobre verso não sabia reconhecer se alguém realmente o escutava, 
ou se simplismente seu monólogo ecoava...
novamente ele se pronunciou:

Sou feito de anseios e planos,
em desejos e propostas de engano...
Sou feito de meus medos e trocas,
se tiver que medir força eu solto a corda,
Às vezes tento ser mais do que eu sou,
me canso e vejo aquilo que não sou...

Novamente, a voz retrucou:

Por tantas vezes teorizei os planos de Deus em minha vida. 
Tudo era muito belo, antes que se concretizasse. 
Já supervalorizei o que Deus colocava,
simplesmente como primeiro passo,
e à medida que esses passos se ampliaram
percebi que não era bem o que buscava, 
ou o que minha humanidade anseava... 

Estar errada, ser fraca, não poder viver uma realidade, 
foram situações que já criaram conflito interior em mim, 
e o Senhor fez questão que eu os vivesse, 
para começar a perceber a quem eu deveria servir...

A permissão para meu cansaço, 
o deparar-me com aquilo que não dou conta sozinha, 
a dor dos 'nãos 'de Deus, 
me fizeram perceber o quão rica e dolorida é a humildade concreta, 
dessas que a gente pena e quando vê está ainda distante...

O pobre verso percebeu que não estava só,
embora aquela voz lhe fosse semelhante, ela soava diferente.
De quem seria esta voz?
Ela parecia o compreender e ainda conseguia
transcrever o que não havia sido mencionado.
Ele então, resolveu persisiti no diálogo:

Não sou super-herói e em meu peito dói
não ter a minha vida em minhas mãos,
Sou feito em escolhas do que quero expor,
que nem sempre revela o que eu sou
Na minha aparência o que eu quero ser,
ser livre pra optar e pra escolher...

Na outra margem, aquela nobre voz suspirava:

Ah! A liberdade....
Teoricamente tão fácil de se viver, de se conquistar, 
mas àqueles que conhecem o Amor
deve-se ter o cuidado de não confundí-la com prisão,
renúncia de tudo, menos de si mesmo... 

Ah! Se vivêssemos o Amor,
a liberdade de Ser quem somos, mas com os olhos do Amor,
com a prudência do Amor,
entenderíamos as asas que estão em nós 
e saberíamos além de usá-las para qual direção no direcionarmos...

Não tenho que tudo suportar,
tenho o direito de gritar, dizer um belo nããããooo, 
mas dizê-lo, por vezes também não me faz ser quem sou, 
mas o que não gostaria de ser em determinado momento. 

A prudência também já me fez livre tantas vezes...

O pobre verso ficou intrigado!
Acaso ele não era o que deveria ser?
Seria ele mais do que um verso? E que asas são estas?
Para onde o pobre verso poderia ir com elas?
Poderia ele com estas asas voar
para a outra margem de onde a nobre voz ressoava?
Estas perguntas, só fizeram surgir outras,
seguida de uma conclusão:

Quem manda no meu tempo? Por que ele rege o meu viver?
O que dura pra sempre e as traças não vão corroer?
Pra fazer o bem até que me esforço, 
mas com o mal que há em mim nem sempre posso!

Ela imediatamente sentenciou:

O Senhor do tempo, por vezes na minha vida, 
foi o único que não permiti que usufluísse dele... 
O TEMPO ESCONDE O QUE É ETERNO!
Meu Deus, como isso é concreto... 
Por que me escravizo ainda por coisas que passam?
Como ordenar tudo isso?
Como o bem poderá prevalecer em mim,
se me consumo pelo mal proceder? 
Se os grãos de areia da engrenagem conseguem
destruir tantas horas de giros e produção?
Como me convencer que o Amor já venceu,
se temo a batalha antes que ela comece?
Onde está meu olhar para o Eterno? O que dispersa esse olhar?

Ao perceber sua própria fraqueza tão evidenciada, ele disse:

No vento vou com as circunstâncias,
vejo como ainda sou uma criança!
Na minha angústia para ser melhor,
paciência comigo nem sempre quero ter,
Quanta coisa pra crescer e ainda entrego ao tempo o meu querer...

A nobre voz silenciou! Em seguida sua prosa continuou:

A minha maior convicção e refrigério d'alma 
é que Deus nunca desistiu do que Ele começou em mim...

O que impediria o pobre verso de ser como a prosa de voz tão nobre?
Porque não voar até o outro lado para absorver esta retórica tão nova?
Não era mais preciso! Algo lúdico acontecia dentro dele 
como o despertar de uma manhã que nunca mais conheceria o ocaso.
Não se contendo mais em si, o pobre verso deixou algo escapar:

Em justa troca ele (o tempo) me angústia e me sufoca, 
me torna feito de quase nada e me explora! 
Afinal de contas, aquilo a quem dou poder
pode me tornar o que não quero ser...

A nobre voz compreendia muito bem o pobre verso.
Ela também um dia, surpreendida por alguém, 
teve a dádiva de obter asas para voar até a outra margem.
Sua prosa um dia foi verso!
Mas hoje, livre de tudo o que a poderia adstringir,
Ela sabia o que é realmente ser livre e como transmitir esta liberdade!
E assim, ensinou:

Oh, tempo! Quantas vezes minha lentidão entra em conflito contigo? 
Não saber administrá-lo já tornou-me escrava de tuas pendências... 
Não é a necessidade de tê-lo a mais,
mais de dar qualidade quando o tenho... 
Um tempo que não me enlouqueça,
mas que seja colaborador das graças em mim... 
Um tempo que seja por mim tomado, como minha própria vida, 
que por vezes escapa de minhas mãos e vira alvo de julgamentos, 
apontamentos, até de outros administradores. 

Enfim...
Quero que somente o julgador justo tome o julgamento do que sou. 
Ele que tem todo direito por mim e em mim, pois escolheu a mim, 
com todas limitações e pendência humanas, imaturidades,
por ser pior mesmo, 
por não saber diferencia-lo do tempo que me dominava.
Ele quer por ordem em tudo...

Perplexo, o pobre verso se percebeu inábil a continuar.
Não poderia ser mais o que era,
desde que a nobre voz da prosa chegou aos seus ouvidos.
Atônito se questionou:

Sou feito de quê?

E a nobre voz vindo em seu auxílo,
deu-lhe das suas asas para o pobre verso voar do verso para a prosa.
Neste vôo, ela o fez compreender que este processo de feitura
consite de uma matéria muito simples...

De limites, mas de infinitas escolhas de superação...

(por Erlison Galvão e Michele Lobo)

2 comentários:

Lu disse...

Dos oito aos dezoito anos fiz ballet, dança moderna, sapateado, jazz. Ainda dou meus passos de dança!(rsrs) Mas nunca, nunca mesmo me senti tão bailarina, tão enebriada por essa "melodia" e flutuando com esses "passos" que penetravam em meu ser a cada palavra! Minha (duplamente: o pronome e o diminutivo do carinho, ou seja, mais carinho)querida! Mais uma vez, expõe minha alma! Tudo bem...esse é o objetivo do poeta! Beijos saudosos!

Aline, a rosa disse...

Que almas são essas Oh, Eterno?!
Que embalam-me em verso, prosa e poesia repleta de perfume de rosa?

Se n'outra condição de vida, presencio a luta
da humanidade dentro em mim
prendendo entre parênteses esse perfume da essência para qual fui criada...
Entrei sem querer
e agora ficou sério...
Lá no meu espaço a rosa desfolhará
sua pétalas em perfume de palavras...
ainda que não alcancem a exatidão
da marca deixada...

rosagilg.blogspot.com.