sexta-feira, 16 de março de 2012

Ouve e conta-me...


Ah! Se tudo o que respira tivesse voz audível, compreensível, para poder contar tamanhos feitos...
Se as ondas ao quebrarem nas praias pudessem exprimir a força que as impulsionou, o que vislumbraram até ali...
Se o tronco que se contorce em vastos anos pudesse traduzir cada nó que o compôs em contos e histórias da noite, e cada estalo do fogo que aconchega gritasse sua dor, suas experiências...
Se a noite estendesse preenchida, não só grilos mas frases que a envolvessem, como a revisão do que foi o dia, e,  mesmo no silêncio de repouso, não permanecesse   uma só lacuna vazia, sem verdade, sem alegria, sem sentido de ser...
Mas a voz compreensível é privilégio de poucos, de criaturas especialmente criadas para compor em frases, cantos e letras, voz e compreensão, para dar sentido às formas vistas, traduzindo as cores, dando grito à profundidade tão perfeita do criado...
Mas antes, de que tudo se exprima em voz, grito, palavra projetada:  
Ouvir... 
Também privilégio de quem condensa a voz e ama...
Ouvir...
Compreender, digerir, como se um filtro de emoções decantasse aos poucos pelos discernimentos da alma, esta vasta tradutora de infinitos...
Ouvir...
Para que a voz ganhe forma e seja direcionada aos  outros postos capazes de levar tudo mais a dentro, mais intimamente, mais ao pulsar.
Ah! Se quisessem me escutar...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Sou parte do

Tudo,

Pois entre ti e mim não cabe espaçamento.
Todo, 
Pois preenches aquilo que ainda não é, pois és
Inteiro,
Pois quando sou parte, me inquieto a te buscar,
Tudo em mim parte...

És o que não encontrei fora de mim, pois o que mirei até hoje  foi a sombra do pleno integrado às reais necessidades de minh'alma.
Jamais viverei sem esse tudo
Não me bastaria algo fora do todo
E não chegaria sem lançar-me ...
de tudo,
em todo,
ao inteiro,
sem partes... 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Em cada novo passo

Em que momento o passo careceu de firmeza para ser ensaiado?
A qual instância, as veias deveriam estar fortes para suportar os impactos?
Em que nível de força a alma suportaria o tudo?
Por que essa raiz exposta camuflada de orgulho não quer receber as únicas águas salvíficas?
Não estou na floresta dos casulos de outrora...
hoje vejo o braço estendido com inúmeras competências...
São as sementes a serem lançadas, não me pertencem, não me pertenço,
E por vezes revirar as desarrumações de fora, quando o que se deve encontrar,
O que deve me encontrar,
O que... Está acessível, exposto para mim tantas vezes, até por cruz...
Organizado, pois ama no que ordena e ordena para o que se ama...
Eis a porta sempre antiga, nova, pois se renova...
Quem precisa de força para escancará-la?
Ela está entreaberta... 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Viver pela fé

No tempo...
Quantas graças, sinais, presentes, manifestações do Amor de Deus... Mesmo que minha lentidão não consiga ainda processar e as tantas ocupações me limitem,  tenho a certeza de que a obra não pára, não se limita na minha vã percepção, no que posso concluir. Me ultrapassa, como tudo o que vem do Céu... E que bom que seja assim... Que bom  não ter minha vontade como via irredutível, pois assim posso ser mais plenificada.
Fico um pouco triste quando minha disposição não corresponde aos anseios do meu coração. Fico triste quando não sou violenta o bastante para agradar corações dóceis, tão dispostos a me conhecer. Mas felicito-me, pois  conhecimento é troca, partilha de dons e superação fraquezas, que se expostas é porque gritam por proteção.
 Mas quão bom é ter onde buscar refúgio, onde sermos tudo o que somos sem termos bloqueios e máscaras. Como é bom ter estrelas de noite escura, não somente para esconder-se sem volta, mas onde podemos ser transformados.
Obra intensa... Grito de Deus... Silêncio... Espera, fé.. Tempo de viver pela fé.... Mas mesmo assim, Deus se faz concreto. Dá-se, em sua inevitável potência de amor. Desejo de renovar as palavras, renovar as intensões, o que foi pedido, a fidelidade no que está sendo concedido, enfim... Tempo de renovar o que já se apresenta como novo. Sem tantos quadros definidos, mas com pés no chão.

E em sua voz paciente me dizia: não quero te perder! Quando poderia impacientar-se. O abraço de saudade, as lágrimas de verdade, a alegria conjunta que a cada dia vai reforçando laços, concretizando o que  ainda não era substância, mas mesmo assim feliz espera. O Senhor do tempo...

E mais doces manhãs, intensas tardes e ricas e suaves noites! Via de paz, tão segura, confiança despojada, que me faz querer ser melhor. Insistência em  habitar minhas boas lembranças e futuras projeções, como a trilha esperada que só gera alegria. Via Shalom, que porta em si tantos dons por mim ansiados, pelas renuncias e humilde descoberta, permitindo um novo radical constante. 

E ir, ir, sem apegar-se aos árduos caminhos, contar com a plenitude que ultrapassa meu inconstante... 
E a fé não enganará jamais...



domingo, 2 de outubro de 2011

Das mãos da menina...

Suave novidade,
A rosa branca me falou,
Que o céu é construído aos pouquinhos
Com tijolinhos de renúncia
Massa da paciência
O tempo faz tudo no passo da estação
E a mão Maior sela
É de vontade trabalhada, ordenada, firmada,
Que se fazem esses muros
Os muros da novidade
Que a rosa branca me contou
Nas mãos da doce menina
Que olhava para o Céu
E você veio, passarinho
Dizer-me que a rosa é viva
E não tem espinhos
Trazer-me um novo olhar
Sobre o tempo, a rosa, o Céu
Pois a rosa branca me disse
Que é tempo de primavera
e que a primavera é novidade
no tempo do passarinho
que me trouxe a rosa
das mãos da menina
do Céu...

Ainda andas...

Que nada roube a essência...
Que o sol escondido não seja ocasião de desespero,
E que no oscilar do fraco facho de luz, não haja ocasião de treva.
Que o grito sufocado não seja razão da desistência  em se  dizer mesmo com batidas que se ama...
Que o tempo não envelheça a jornada, mas a conserve dinâmica e sempre nova, reincidente, insistente, ainda que persistente em enormes vazios...
Que a novidade exista, ainda que não se façam descobertas
Que a chuva renove, ainda que ausente, mas na constante espera por terra úmida
Que o deserto não seja curto, ainda que escaldante, para se lembrar do quanto a espera por água viva é recompensante
Que imprevistos não desnorteiem, para que se abram às possibilidades
Que o amor não se extinga, para que seja plenitude, origem e verdade
Que a fraqueza não seja espelho único, para que com forças nutridas se mirem outros prismas
Que não haja o grito da queda, ou que se prolongue o silêncio da misericórdia...
Ação ou reação? Ação ou reflexão?
Que o todo seja apenas reflexo duma ação Maior...
Que o rápido aos olhos não roube a atenção,
Mesmo que o essencial passe lento, longe do que se concebe,
Do que se mede, do que se contempla...
Que as formas e tamanhos não iludam, pois o pequeno e até invisível pode ser base, alicerce seguro,
Que as respostas não venham prontas, mas consistentes, objetos de busca,
Que o combate não cesse no campo mais confortável,
pois pode ser estratégia dos inimigos para não nos dispormos ao combate maior...
Não acomodar-se no dar-se,
Não iludir-se no suprir-se,
Não pesar no gastar,
Que a medida com que se doa não doa...
Que o olhar para trás não volte atrás,
pois é de estradas seguras, percorridas e seladas que precisam
Os que virão nessas buscas essências.

domingo, 18 de setembro de 2011

De todo em tudo

Voltando...

não em partes,
 mas de todo

Esperando o que não se pode encontrar em partes
Eis meu coração inteiro!
Onde ontem partes chegaram
Mas espero encontrar o inteiro e os
pedaços estão pelo caminho
Intensidade...
Rótulo acolhido, não parte do que sou
Mas intensa verdade
Inteira...
Do que aprendi
Ao menos em partes
E dessas partes inteiras alimento
Todo o inteiro que sou
Saudades inteiras
Verdades inteiras
Dores e alegrias
Que em partes se completam
E assim chego
Inteiramente chego
Para dar por inteiro
As partes que resgatei no caminho

Todo caminho

domingo, 10 de julho de 2011

Sementes de agora

O mistério da chuva que vai, e não volta sem ter cumprido sua missão, seu dever fecundo, que enobrece em seu feito mais do que a beleza do simples dar-se à terra, mas é lá, no escondimento seu feito mais esplendoroso.
Parábolas se tornam claras àquele que vêe e ouve todos os dias os sinais de amor, tão repetidamente novos… 

Ontem víamos as sementes como a alegoria mais profunda, aí descobrimos as raízes da alma e o que será quando descobrirmos os frutos, e ainda mais quando deles provarmos? Respondo : Seremos mais uma vez felizes pelas sementes, agora mais e mais abundantes... O segredo não está na quantidade delas que portamos, mas no desejo incontido de lançá-las...
Elas precisam cair na boa terra, na terra preparada, não na aparentemente úmida de vontades, mas na laborada, suada de ofertas, pisada de quedas e soerguimentos, pés firmes, pés decididos, que sabem onde estão pisando... Sim, aí está a boa terra, a terra da constância.
Elas já explodem pelo ansear de tocarem nova terra, a terra de ontem sempre hoje, a terra onde se firmará o amanhã. Hoje semente mais amadurecidas, que foram extendidas diante de raios incessantes do Sol, raios persistentes, raios continuamente e constantemente mirados no  alvo certo, sem desvencilhar nem nas noites e tempestades. 
Inevitável será o bom fruto, o fecundo, mesmo em meio à dúvida de outrem, é tempo favorável de tentar de novo. Ao que crêe não pode faltar esperança, não pode faltar o que abunda. Só quem já viveu desertos rigorosos é capaz de crer que toda terra é capaz. 
E tudo cantará de alegria!!!!